Apresentação

Literatura negra não caiu na graça do mercado, diz autor de Cidade de Deus
Publicado em 29.10.2014 15:25:51

Por Danutta Rodrigues

Filho de baianos, o carioca Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus (1997), que deu origem ao filme homônimo, é poeta, romancista, roteirista de cinema e televisão, além de professor licenciado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No próximo domingo (2), às 10h, ele vai participar da última mesa de debates na Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que começa na quarta-feira (29).

Lins afirmou que irá defender a participação do negro na formação da cultura brasileira, assim como a produção literária nas periferias. “Eu vou falar a mesma coisa que eu falo nas favelas de São Paulo e do Rio de Janeiro quando o assunto é negritude, que é sobre a participação do negro na formação da cultura nacional e agora o advento da produção literária nas periferias”, revela. Para ele, estar na Bahia mais uma vez, já que o autor morou também no estado, é sempre gratificante, assim como participar do evento. “É sempre um aprendizado e eu estou muito orgulhoso de ir. A gente sempre aprende mais do que qualquer outra coisa”, conta.

Para compor o debate, o roteirista vai estar ao lado de Nelson Maka e Juraci Tavares, ambos poetas negros para abordar os temas literatura negra e cultura nas periferias. Em um bate-papo descontraído com o G1, Lins falou sobre samba, cinema, literatura, racismo e mercado editorial para autores negros. Confira entrevista na íntegra:

G1 – A mesa “Demarcando espaços e territórios” vai abordar sobre a literatura negra, além do tema cultura nas periferias. Você acredita que existe racismo no mercado editorial brasileiro?

Paulo Lins – Olha só, existe racismo em todos os setores da sociedade e a produção dos negros ainda não caiu na graça do mercado editorial oficial. A minha geração é da poesia independente, aí as pessoas vão publicando. Não acredito que uma editora vai recusar um livro porque o autor é negro. Se vender, eles vão publicar. Mas tem um processo histórico por trás disso. Se o negro começa a escrever agora é por causa do acesso às escolas. Negro começa a estudar na década de 1930, então ainda estamos caminhando para aumentar essa produção.

G1 – Uma pergunta polêmica: finalmente, o samba nasceu na Bahia ou no Rio?

Paulo Lins – A palavra samba é antiga e aparece em todos os lugares da América do Sul onde tinha negro. Agora esse ritmo de Paulinho da Viola, Martinho da Vila, nasce com filhos de baianos. E antes disso teve uma geração que teve Pixinguinha, Donga, que existia a Música Popular Brasileira. O samba é filho do candomblé, da umbanda, faz parte de uma produção dos negros baianos que trouxeram aqui para o Rio de Janeiro. E também os que vieram de Minas Gerais, São Paulo. Então, o samba é uma produção africana e brasileira que vem do batuque.

G1 – Poesia ou romance? Cinema ou literatura?

Paulo Lins – A poesia, né? Eu comecei com poesia e nunca deixei de fazer. E a poesia é mais elaborada, é mais concisa, e a gente faz sempre, não para, nunca deixei de fazer poesia. A poesia é mais fino. As palavras têm que estar muito bem localizadas, mais diretas, o objetivo da comunicação é mais direta. Cinema ou literatura? (risos) Eu vejo tudo muito parecido. Os dois têm suas particularidades. Na literatura, por exemplo, você trabalha sozinho. Já no cinema tem a parceria e eu gosto muito disso, adoro trabalhar em grupo. A literatura é isolada. É um processo mais íntimo.

G1 – Diante da grande obra Cidade de Deus, pode-se concluir que o seu processo de produção literária é um pouco autobiográfico?

Paulo Lins – Não. O Cidade de Deus foi sob encomenda. Eu fiz pensando em diminuir a violência do Brasil. Foi muito mais um trabalho antropológico do que literatura. A minha produção tem a ver mesmo com a cultura.

G1– Alguns defendem que a literatura ainda é arte de elite. Você compactua dessa opinião? Como a literatura é inserida no universo das comunidades periféricas, que sofrem principalmente com a violência?

Paulo Lins – É uma elite que não necessariamente é financeira. A elite financeira também não lê. O mundo da literatura é muito pequeno. O problema do Brasil é buscar produzir leitores em todas as classes sociais. Tem que começar em casa. Tem que fazer campanha grande, de leitura e já está melhorando. Mas a escola pública é primordial nisso. Essas feiras e festas, como a Flica, ajuda a estimular o leitor. Então, essa inserção está vindo de vários setores e estamos trabalhando para isso.

Revista Áfricas