Relações entre Trabalho e saude
A Saúde como Elemento para Repensar a Prática do Ensino

A atividade de ensino já foi vista como função de alto valor social, interpretada como um "dom", um "sacerdócio", valorizada por todos os cidadãos e assumida pela sociedade como uma atividade pública. Nos últimos tempos, com o predomínio e expansão das relações capitalistas, essa atividade perdeu completamente este sentido.

As modificações promovidas pelas novas formas de compreender a prestação de serviços, dentre eles a educação, orientaram-se, sobretudo, pela lógica do modo de produção capitalista, especialmente na perspectiva do modelo neoliberal atual. Tal reorientação buscou transformar relações socialmente relevantes em mercadorias, visando, em maior ou menor grau, a obtenção do lucro. Esse processo pode ser exemplificado pela prática do ensino. A educação tornou-se um dos setores mais lucrativos (investimento de retorno imediato, incentivado e/ou desencadeado a partir do desmoronamento intencional da educação pública e gratuita).

Assim, se é possível aplicar à atividade de ensino (aqui compreendida como produção de mercadoria socialmente valorizada) a lógica da produção capitalista, é também possível gerenciar aqueles que produzem essa mercadoria (os professores), tal qual se gerenciam os trabalhadores de uma fábrica. Dessa forma, aplicou-se aos professores regras bastante semelhantes àquelas aplicadas aos demais trabalhadores do setor primário e secundário da economia: controle da produtividade, do ritmo de trabalho, do tipo de tarefa a ser executado, do tempo para sua execução, da jornada e carga de trabalho necessárias.

Esse processo passou inicialmente pelo desmantelamento do setor público de educação, o que vem obrigando os professores, cada vez mais, a ingressarem na rede privada e lucrativa de ensino, sem, no entanto, usufruir de boa parte desses "lucros". Os professores, ao se inserirem nesse sistema que, guardando suas devidas especificidades, diferem muito pouco de qualquer empresa capitalista, submetem-se ao mesmo sistema de exploração ao qual estão submetidos os trabalhadores em geral: instabilidade no emprego, ritmo intenso de trabalho, extensas jornadas de trabalho.

Portanto, é dentro e a partir da compreensão da educação amplamente inserida no modo de produção capitalista, que devemos discutir e entender o processo de saúde-doença dos professores da rede particular de ensino.

Trabalho e Saúde dos Professores - O Que Se Pode Dizer Dessa Relação?
O trabalho humano possui um duplo caráter, por um lado é fonte de realização, satisfação e prazer, estruturando e conformando o processo de identidade dos sujeitos; por outro, pode também transformar-se em elemento patogênico, tornando-se nocivo à saúde (Seligmann-Silva, 1987, Dejours, 1987). No modo de produção econômica predominante no nosso país, considerando-se particularmente os modelos de organização do trabalho adotados, largamente ancorados em formas autoritárias de gestão, controle contínuo dos trabalhadores, ritmo acelerado e intenso fluxo de demandas, devemos considerar atentamente as conseqüências dessas formas de organizar e conceber os processos de trabalho sobre a saúde dos trabalhadores.

O avanço da medicina social, ocorrido nas últimas décadas, possibilitou uma maior conscientização dos profissionais de saúde quanto à necessidade de manter serviços permanentes dedicados às ações primárias, com ênfase na prevenção e promoção à saúde, antes da ocorrência de um quadro patológico. Por outro, os trabalhadores e suas entidades representativas também tem inserido questões relativas às condições de saúde e trabalho em suas estratégias de lutas e intervenções, voltando-se, em anos mais recentes, para a busca de medidas que garantam a preservação de um ambiente ocupacional saudável. Como parte desse processo, pode-se observar o incremento dos estudos das relações entre condições de trabalho e saúde dos trabalhadores. Conseqüentemente, já há considerável literatura sobre as repercussões do trabalho no processo saúde-doença da população (Dejours, 1978, 1987; Laurell & Noriega, 1989; Fischer, 1989; Rocha et al., 1993).

Entretanto, a maioria de tais investigações está direcionada a categorias de trabalhadores onde a inter-relação entre trabalho e saúde é mais evidente, pela própria natureza da atividade (por exemplo, contato com equipamentos cortantes ou substâncias tóxicas). No Brasil, pouco ainda tem sido feito no sentido de avaliar as repercussões do trabalho sobre a saúde em categorias de trabalhadores onde esses riscos são menos visíveis, como por exemplo em professores. A maior parte da bibliografia encontrada acerca desse tópico em particular é originária de outros países. A revisão de literatura sobre trabalho docente e a saúde dos docentes, portanto, revelou uma produção científica ainda incipiente. Entre os estudos revisados, destacam-se aqueles referentes ao estresse. Há um consenso, nesses estudos, de que ensinar é uma ocupação altamente estressante, com repercussões evidentes na saúde física e mental, e no desempenho profissional dos professores.

Alguns estudos têm avaliado as fontes e extensão da ansiedade (Keavney & Sinclair, 1978) e do estresse percebido pelo professor. Apesar das fontes de ansiedade avaliadas variarem muito de estudo para estudo, dentre as mais comumente relatadas, incluem-se: pressão do tempo (Olander & Ferrell, 1970), relacionamento com a administração e outros colegas (Moracco et alii, 1982), ameaças verbais e físicas feitas pelos estudantes (Cichon & Koff, 1980), tarefas extra-classe, reuniões e atividades adicionais e, problemas com alunos (Dedrick at al., 1981). A relação desses estressores com repercussões na saúde tem sido avaliada. No que se refere à saúde psíquica, no estudo de Payne & Fletcher (1983) observou-se que demanda do trabalho predizia significantemente depressão e falhas cognitivas.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT, 1981 apud Machado, 1993), um em cada dois professores participantes de uma pesquisa da Universidade de Munique estava exposto ao risco de sofrer um ataque cardíaco; entre docentes da Hungria constatou-se maior prevalência de distúrbios advindos do estresse, labirintite, faringite, neuroses e doenças dos aparelhos locomotor e circulatório em docentes; entre educadores franceses, segundo dados oficiais, 60% das solicitações de licença por motivo de doença relacionavam-se a distúrbios nervosos. Além disso, verificou-se, entre pessoas hospitalizadas por doenças mentais, maior incidência de neuroses com depressão entre os professores do que em outras categorias profissionais. Na Inglaterra, um estudo realizado em 1978, indicou que 25% dos professores não acreditavam na própria permanência na profissão pelos próximos dez anos, e 20% a 30% deles classificaram-na como causadora de estresse.

Nos Estados Unidos, DeFrank & Stroup (1989) estudaram professores de escolas elementares para avaliar a relação entre fatores pessoais, estresse, insatisfação no trabalho e problemas de saúde. Dos indivíduos estudados 96% eram mulheres, 76% casadas, com média de idade de 39, 4 (±9,2) anos e ensinando, em média, 12,1 (±6.9) anos. De acordo com o instrumento de avaliação de estresse usado , os itens mais freqüentemente relatados foram sobrecarga laboral e problemas com os alunos (referidos como "tentativas contínuas de motivar estudantes que não desejam aprender").

Os problemas de saúde mais freqüentes foram: perda de energia, impaciência, dores de cabeça, hiperalimentação, aumento da irritabilidade e dores na coluna. Em sessão aberta do questionário, os professores estabeleceram como principais fatores de estresse: avaliações, tempo insuficiente para as tarefas estabelecidas, preocupações diárias (trabalho de casa, currículos, reuniões), responsabilidades extracurriculares, problemas com os pais que não se preocupavam com a vida escolar do aluno e falta de tempo para estar com a família. Fatores demográficos e experiência de ensino não influenciaram estresse. Estresse apareceu como um forte preditor de insatisfação e esta mostrou-se fortemente associada aos problemas de saúde.

Um outro grupo de estudos avaliou questões relativas aos problemas vocais entre os professores. Sapir et al. (1993) realizou um inquérito em professoras escolares, de várias localidades dos Estados Unidos, para avaliar problemas de voz. Segundo os dados encontrados, as professoras apresentaram um número médio de 3,8 sintomas de desgaste ou atrito vocal. Mais da metade relatou múltiplos sintomas. Um número significativo, especialmente de professoras com múltiplos sintomas, relatou que os sintomas afetavam negativamente seu desempenho nas atividades de ensino e que a voz era uma fonte permanente de estresse e frustação.

Smith et al.. (1997) compararam a freqüência de sintomas de voz entre um grupo de professores e um grupo de indivíduos de outras ocupações. Os professores relataram ter mais problemas de voz (15%) do que os não professores (6%). Vinte por cento dos professores e nenhum indivíduo do grupo de comparação tinham perdido algum dia de trabalho em conseqüência de problemas de voz. A partir dos achados encontrados, o autor conclui que ensinar é uma ocupação que envolve um risco mais elevado para desordens da voz. Estas desordens, por sua vez, trazem implicações negativas tanto no que se refere às condições financeiras do docente, quanto ao seu desempenho profissional. Gotaas & Starr (1993) interpretaram os resultados do seu estudo como indicativos de que as características vocais dos professores que apresentaram fatiga vocal são similares às dos que não apresentaram nos dias em que os primeiros não tiveram fatiga.
Encontraram também que os dois grupos eram similares com relação a quantidade e altura dos seus tempos de fala, no trabalho e em casa. Entretanto, professores com fatiga vocal tendem a despender mais tempo em atividades que parecem ser mais demandantes da voz e estão mais propensos a perceber situações produtoras de ansiedade. Professores que fatigam a voz tendem a estar em boa saúde, mas têm tido mais problemas auditivos e alergias do que os demais colegas, e outros membros de sua família têm tido também problemas com a voz.

No Brasil, as referências de estudos abordando as condições de saúde e trabalho do professorado são ainda escassas e, apenas na segunda metade da década de 90, foram produzidas algumas investigações, abordando as condições de saúde e trabalho da escola pública. As evidências encontradas nesses estudos são preocupantes e apontam a necessidade de medidas imediatas. A investigação de Codo et al. (1998) sobre a saúde mental dos professores de 1o e 2o graus em todo o país, abrangendo 1440 escolas e 30.000 professores, revelou que 26% dos professores da amostra estudada apresentavam exaustão emocional (cerca de 1 professor a cada quatro estudados). Essa proporção variou de 17% em Minas Gerais e Ceará a 39% no Rio Grande do Sul. A desvalorização profissional, baixa auto-estima e ausência de resultados percebidos no trabalho desenvolvido foram fatores importantes para o quadro encontrado.

Ruiz et al. (1995), investigaram a demanda de professores de 1o e 2o graus da rede pública de Sorocaba, São Paulo, num ambulatório especializado em saúde ocupacional. A demanda por atendimento foi periódica nos semestres: no começo do ano era pequena, nos meses seguintes aumentava, no início do 2o semestre voltava a diminuir e, novamente, aumentava no final do ano.
Durante as férias, a demanda registrada era mínima. Segundo os autores, esse comportamento da demanda favorece a hipótese de que a procura do cuidado médico e, conseqüente afastamento do trabalho, aumentava no decorrer do período letivo, revelando um desgaste crescente dos professores. Dentre as doenças mais freqüentes encontraram a laringite, que representou 39,8% dos diagnósticos realizados, seguida pela asma ocupacional (15,3%), alergia ocupacional (6,8%) e lesões lesões por esforços repetitivos (LER).

Carvalho (1995), estudando professoras primárias na cidade de Belém, encontrou níveis mais elevados de suspeição de sintomas psíquicos (de acordo com o instrumento de detecção utilizado: o MMPI), em escolas onde se relatou um relacionamento menos democrático com a direção, do que naquelas onde predominavam relações mais democráticas.

Em Salvador, Bahia, o CESAT (Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador), órgão da Secretaria de Saúde do Estado, em um estudo da demanda do Ambulatório no período de 1991 a 1995, registrou o atendimento de 76 docentes. Das pessoas atendidas 93,4% eram mulheres, com faixa de idade predominante entre 40 a 49 anos. Após avaliação, 46 educadores (60.5%) foram diagnosticados como portadores de doenças ocupacionais. As doenças encontradas foram: calos nas cordas vocais, 41.3% dos casos, rinosinusite, 34.8% dos casos, asma, 13.0%, Lesões por Esforços Repetitivos, 6.5%, dermatose, 2.2% e varizes, 2.2% (CESAT, 1997).

Os dados revisados revelam um conjunto de repercussões nocivas do trabalho na saúde dos professores, ainda que a visibilidade dessas repercussões não seja tão evidente como em outras categorias profissionais.

Entretanto, a grande maioria desses estudos investigou escolas públicas. Considerando que o processo de trabalho docente em escolas particulares, em muitos aspectos diferem, drasticamente, das escolas públicas, torna-se necessária a avaliação da saúde dos professores, no contexto específico das escolas particulares. Tal necessidade é ainda maior quando se considera o acelerado crescimento do número dessas escolas, observado no Brasil nos últimos anos.

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